Inspirada pela ideia de renovar os ritmos brasileiros mais populares a partir de uma estética moderna e urbana, a banda belo-horizontina A FASE ROSA volta à cena com o lançamento de seu mais novo álbum, LEVEZA. Experimental e multiculturalista, com timbres ricos e sonoridade singular, o disco é norteado pela liberdade e leveza, tanto na criação como no conceito. No repertório, um apanhado das muitas possibilidades que permeiam o som do grupo, que tem sua força no suingue da música brasileira, aqui, revigorado pela energia própria de uma banda de rock. Tudo isso materializado de maneira prazerosa, exatamente como o nome do disco sugere. Vigor renovado depois de um ano e meio desde a elogiada estreia com o CD “Homens Lentos”, é também a leveza que parece refletir nova luz sobre o processo criativo e a trajetória da banda, formada pelos músicos Fernando “Feijão” Monteiro (bateria e voz), Rafael José (guitarra e voz), Rodrigo Magalhães (baixo e voz) e Thales Silva (guitarra e voz). “É possível notar um diálogo ainda mais forte com os procedimentos de crítica e criação característicos dos artistas brasileiros. Continuamos com o desejo de traduzir a música e a cultura brasileira para o mundo, mas respeitando e tentando compreender diariamente o que de fato somos”, observa o guitarrista Thales Silva. Nesse novo capítulo da história do grupo, a mudança é sutil, mas profunda. As letras do novo disco continuam muito críticas, politizadas e atentas ao que acontece ao redor dos músicos, mas o ângulo é outro – mais leve e otimista. Em tom arrojado, de quem sempre optou por sair da zona de conforto, a aspiração que emerge do som e da fala do grupo é pela novidade, que, entretanto, não desconsidera as tradições. É da beleza, que gera encantamento, mas também dúvida e estranhamento, e se revela a partir da descoberta – para eles, sempre mais surpreendente.
1. MÃOS UNIDAS | Thales Silva
Vinha lendo alguns livros que tratavam da
construção das nações latino-americanas, em especial o Brasil. No
parágrafo final de um desses livros, no caso, “O Povo Brasileiro”, de
Darcy Ribeiro, ele fala do Brasil como uma nova Roma, moderna, cheia de
contradições, mas também com muita luz para todo o tipo de desarranjo
que possamos vir a enfrentar. Falo dessa "terra onde o sol iluminou os
corações... nos alcançou um império sem lei...". Na instrumentação, a
banda volta a explicitar a intenção de dialogar mais fortemente com as
brasilidades.
2. A PRAIA | Thales Silva
É uma canção de celebração ao momento que
vivíamos com a explosão da Praia da Estação. Muita coisa mudou desde
então, mas esse movimento teve muita influência na deflagração de
diversos outros movimentos sociais surgidos em Belo Horizonte. A reunião
de pessoas naquele lugar fortaleceu a comunicação dos grupos. O
movimento está vivo e em mutação. A música é super tropical e feita pra
ser cantada junto.
3. LEVEZA | Thales Silva
A música fala de uma sensação gostosa que
tive ao ouvir o álbum “1973”, de João Gilberto. Fiz versos que brincam
com pedaços de letras do álbum para caracterizar e desenhar essa leveza
que sentia. Na instrumentação, levamos isso em conta pelo despojo e
naturalidade com que fizemos a produção. Numa jam de meia hora o
arranjo já estava praticamente pronto e mal modificamos qualquer coisa
depois. Existem muitos espaços na música, para que a voz carregue a tal
ausência de peso sobre a qual falamos.
4. TREASURES AND TRAGEDIES | Thales Silva
Faixa inspirada no momento de leveza que
eu passava. Surgiram muitas canções sobre esse período. Por isso também o
nome do disco que acabou abarcando as canções e influenciando todo
mundo na construção dos arranjos. Na direção da leveza, da lassidão
causada por essa vontade de prazer e de entrega, os arranjos também
ganharam um tom muito ligado ao reggae. O ritmo é arrastado, o canto é doce e as timbragens são nostálgicas.
5. PARAÍBA | Rafael José e Thales Silva
A música é do Rafael, com letra minha.
Nela, tratei de um tema que tem sido fruto de muita curiosidade da minha
parte que é o feminismo. Como a música do Rafael já me chegou como um
baião, pensei imediatamente nos bailões de forró. Fiz uma brincadeira
com duas letras desse universo que tem cunho machista. Sem julgar,
apenas inverti os sentidos, representando desse modo a realidade bem
mais confusa do que nos fizeram acreditar por certo tempo. Na produção, a
banda toda abraçou esse clima; do calor e da lascividade desse tipo
gostoso de música.
6. BH – SP | Thales Silva
É uma música de amor. Trata-se da ponte
Belo Horizonte – São Paulo, necessária pra que se investisse naquele
momento bom que eu vivia. Rodoviárias, metrô, Vila Madalena. A banda
seguiu ainda o caminho da simplicidade e da austeridade nos arranjos. A
ideia foi experimentar, a nosso modo, a partir da tranquilidade
tradicional do samba-bossa que a canção trazia. Reconstruímos a rítmica e
abusamos de timbragens mais experimentais e arranjos menos
convencionais.
7. GUANABARA | Thales Silva
A canção nasceu como um funk
carioca. Vinha brincando com essa ideia e cheguei a fazer alguns.
Guitarras, baixo e bateria trabalham muito forte no sentido rítmico,
enquanto as texturas e uma sonoridade mais roqueira setentista foi
explorada nas guitarras do Rafa. Na letra, falo das minhas sensações
experimentadas ao vivenciar e pensar o Rio de Janeiro. Às vezes, não
compreendo, me indigno e, por outras vezes, me sinto maravilhado. Enfim,
trato aqui das contradições que o lugar tem e causa nas pessoas e em
mim.
8. ESSA NEGA ME FALTA! | Paula Berbert e Thales Silva
Mais uma parceria minha com a Paula.
Trata-se ali das sensações dela, lembrando de sua casa em Uberlândia.
Das presenças e ausências. Da saudade e das memórias. Avós, amigos,
cheiros. Na montagem dos arranjos, respeitamos a brasilidade da canção,
que começa mais explosiva numa espécie de samba rock e termina na
repetida leveza de um xote, que é dirigido pelo próprio canto que se
torna mais leve e justifica bem a letra.
9. FLORZINHA | Thales Silva
Florzinha é sobre uma nova forma de
entender o amor. Com os relacionamentos que começam e os que terminam,
em geral ficamos confusos, carentes. Aflige a todos. Só quis dizer que
somos amor o tempo todo e que é gostoso curtir cada um deles, com o que
podem nos oferecer de troca. Quero dizer em poucas palavras que qualquer
amor vale só por ser amor. Musicalmente isso foi explicitado através de
um samba arrastado, com experimentação de texturas e ritmos.
10. CHEIRO BOM (HOMENAGEM AO TIBET) | Paula Berbert
Sinto essa canção como uma das que mais
explicita a nova fase, muito mais coletiva da banda. Desde a canção, que
é uma parceria minha com a Paula Berbert, até o modo como foi tocada,
produzida e pensada. Os arranjos surgiram instintivamente e essa toada
de liberdade deu à música um ar de psicodelia. As guitarras são
roqueiras e experimentais, enquanto que a rítmica é bem livre e fluida.
11. VADIAR | Thales Silva
Essa música eu fiz sobre o fim do
relacionamento de um amigo e o modo maduro como ele tratou a questão.
Falo da tranquilidade após um pedido de "liberação pra curtição". Como a
música tem certo (bom) humor, optamos pela construção de um samba mais
rápido. Naturalmente, os ritmos voltam a sofrer alterações e não são
rígidos. Novamente experimentamos na forma e nas timbragens dos
instrumentos.
12. COISA PRETA | Thales Silva
É uma ironia com a preconceituosa frase
"a coisa ficou preta". Usada, em geral, com intenção pejorativa, busquei
utilizá-la no sentido oposto. É, na verdade, uma ode à contribuição da
cultura, da música e intelectualidade negras na construção de tudo que
temos de bom. A música ganhou um clima parecido com o Reggae, mas camuflado pelas desconstruções que fizemos. Por outro lado, o procedimento de experimentação e jam acabaram por também reconstruir o ritmo, resultando em algo diferente.
[DOWNLOAD GRATUITO] Direto do site da banda.
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